Uma conta que não fecha
Cadastrado em: 14/06/2010
O aumento progressivo das mensalidades dos planos de saúde em função da idade dos beneficiários tem criado uma equação difícil de ser resolvida. Ao mesmo tempo em que o valor mensal do plano pode dobrar com a entrada na terceira idade – chegando a R$ 800 em média –, a renda da população com mais de 59 anos tende a cair abruptamente com o início da aposentadoria, justamente na fase da vida que requer maior atenção com a saúde.
Essa situação vem se tornando insustentável para os usuários idosos, que buscam formas de contornar os altos custos com uma aposentadoria que, em 77% dos casos, equivale a um salário mínimo (R$ 510). Uma das alternativas é buscar a ajuda da própria família para dividir os gastos com a manutenção do plano.
O aumento progressivo do número de idosos na população brasileira, que coloca em xeque o atual sistema de seguridade social, também pode levar o atual modelo de planos de saúde privados ao colapso nas próximas décadas. Segundo levantamento do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), nos últimos dez anos a participação de idosos na saúde suplementar brasileira cresceu 30% acima da média do total de usuários das outras faixas etárias.
Este é o caso da aposentada Leonita Kormann, que só conseguiu manter sua cobertura de saúde graças ao que chama de “compensação natural”.“Quem me salva é o meu filho, que é médico cooperado de uma operadora e me ajuda com as mensalidades. Se não fosse essa retribuição por todo o cuidado que eu tive na criação dele, seria totalmente impossível continuar com o plano”, revela.
Aos 65 anos e recebendo uma aposentadoria de cerca de R$ 1,5 mil, ela calcula que não teria condições de pagar R$ 665 à operadora, além dos R$ 740 que chega a gastar apenas com remédios todos os meses. Somente as duas despesas consomem o equivalente a 90% da renda da aposentada.
Segundo Leonita, o plano poderia ser ainda mais caro – cerca de R$ 1 mil – se ainda estivesse na modalidade de internamento em quarto individual. Mas, por vontade da própria usuária, o plano foi mudado há algum tempo para a modalidade enfermaria, tornando-se um pouco mais barato.
“Não gosto de ficar sozinha no hospital. Pelo menos na enfermaria tem com quem conversar”, justifica.
Ela conta que, nos últimos dez anos, já foi internada “algumas vezes” em decorrência de uma cirurgia de cateterismo e de um acidente vascular cerebral (AVC) transitório.
“Quando completei 60 anos, foi um choque: a mensalidade quase dobrou. Não tenho nem muita coragem de conversar sobre isso com meu filho, mas, nesta idade, não tem como ficar sem um plano para dar segurança”, avalia. Segundo ela, a ajuda do filho também vem na facilidade que ele tem em obter os remédios. “Preciso de duas caixas por mês, sendo que cada uma custa R$ 370.
Por sorte – e por ser médico –, muitas vezes ele consegue algumas caixas como amostra grátis. Se para mim já é difícil, imagino a situação de quem não conta com todo esse apoio”, diz.
O advogado aposentado Gelindo João Follador, 73 anos, usuário de plano de saúde há 20 anos, garante que não chega a enfrentar aperto financeiro para pagar as mensalidades, mas revela que compromete cerca de 30% da sua renda mensal para manutenção de sua cobertura e da de sua esposa, Isabel. Mesmo assim, ele considera o gasto imprescindível.
“O plano me serviu muito bem quando foi necessário. Com essa idade, não se pode contar exclusivamente com o SUS, e posso afirmar que [ter o plano] representa uma boa segurança. É uma poupança para garantir minha saúde e a da minha esposa”, diz Follador, que nos últimos anos passou por um tratamento da próstata e uma operação cardíaca, da qual permanece sob acompanhamento periódico.
“Não consigo nem imaginar o quanto eu gastaria se tivesse que pagar os tratamentos com recursos próprios. Certamente teria que vender o carro e me desfazer de alguns bens”, avalia.
Já o funcionário aposentado da Receita Estadual Dalton Fonseca Belém, 76, recorreu ao chamado “plano coletivo” para conseguir manter o seguro saúde compatível com seu orçamento.
Através do Sindicato dos Auditores Fiscais, ele contratou um plano de R$ 400 por mês, sob o sistema de co-participação, no qual o beneficiário paga cerca de 30% do valor das consultas e exames que utiliza.
Assim, o aposentado compromete cerca de 10% de sua renda em despesas de saúde, o que, segundo ele, não o obriga a cortar outros tipos de gastos. Mesmo assim, Belém se diz insatisfeito com o plano e o valor das mensalidades. “O negócio está pesado, se eu não tivesse esse plano [coletivo] ficaria difícil pagar um particular, de R$ 800 ou R$ 1 mil”, calcula.
Fonte: Gazeta do Povo
Enviada por JC
Edição: F.C.
14.06.2010
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