Um homem que lutou e luta pelo que acha certo
Cadastrado em: 17/10/2006
Há 37 anos Wilton Mendes começou o ofício da Medicina. Nascido em Pedro II, nos idos de 1943, concluiu o científico em 1961 e se mandou para Recife, terra do conhecimento à época.
Na Universidade da Veneza brasileira, hoje chamada de Universidade Federal de Pernambuco [UFPE], Wilton tentou duas vezes o vestibular, sendo aprovado na segunda por um problema na prova de francês à época. Enquanto nenhum aluno jamais havia sido reprovado em nenhum dos exames, a turma de 1963 teve 27 reprovados. A prova de que esse fato houvera sido apenas um acidente de percurso foi a aprovação no ano seguinte em 3º lugar lugar geral no vestibular da faculdade e 2ª colocação dentro do próprio curso.
Depois de tantos anos de estudo e de profissão, dr Wilton, que escolheu a otorrinolaringologia como especialidade, passou a fazer parte do Conselho Regional de Medicina, em 1993, assumindo, primeiramente a cadeira de 2º secretário do Conselho, passando pelas cadeiras de vice-presidente, tesoureiro e agora, presidente, função que exerce até o fim de 2008.
MEDPLAN - Dr. Wilton, o senhor é o atual presidente do Conselho Regional de Medicina. Que sentimentos esse cargo inspira ao senhor?
De muita responsabilidade. Principalmente de muita responsabilidade. Por que o Conselho Regional de Medicina é o órgão que julga, supervisiona e vistoria a profissão de médico dentro das regras da ética. A lei que regulamenta e rege a profissão é a 3.268/57 de 30 de setembro, instituída por Juscelino Kubischetk, que, como médico, entendeu o que deveria balizar a profissão.
Além disso, somos um órgão totalmente independente, que não tem vínculo com ninguém, buscando sempre o bem da população e a proteção dos bons profissionais.
MEDPLAN – E o Conselho do Piauí tem muito trabalho?
Não que seja um sinal de mau serviço, mas, como todos os conselhos de aspectos éticos, recebemos um volume grande de reclamações. É muita responsabilidade. De todas as funções públicas que eu exerci nesses 37 anos de profissão, nada teve uma responsabilidade tão grande como essa. Como presidente do conselho, sou representante de todos os médicos do Piauí, algo em torno de 2.400 profissionais.
MEDPLAN – E quando foi que o senhor se apaixonou pela Medicina?
Foi bem cedo. Em 1961 eu terminei o científico e fui para Recife fazer o vestibular. Das quatro provas a que tínhamos que enfrentar, passei em três, sendo que a que eu não passei foi a de línguas, por conta de um erro. No ano em que eu fiz foi o primeiro em que alguém reprovou no vestibular, tanto que sofri o trote duas vezes. Uma no ano em que não passei e outra no ano em que fui aprovado, por que o teste de língua já não reprovava ninguém. Só que na primeira vez em que fiz vestibular foram 27 reprovados. No ano seguinte, quando fui aprovado, passei novamente pelo trote. [risos]

MEDPLAN – E como foi que o senhor se apaixonou pela otorrinolaringologia?
Em 1969 eu terminei o curso de Medicina, e de 69 a 71 eu fiz residência de Otorrino. No início eu bem que queria Cardiologia, mas nessa época eu tinha uma visão de que a Cardiologia estava voltada mais para a cirurgia e eu vi na Otorrinolaringologia uma possibilidade de misturar mais a clínica com a cirurgia. Quando eu paguei a cadeira de Otorrino na faculdade a minha curiosidade também ficou aguçada e a minha escolha foi baseada nisso também.
Essa escolha foi confirmada pelos grandes mestres que tive. Foram três em especial: Geraldo de Sá e Agnaldo Jurema, já falecidos e Nelson Caldas. Tive essa oportunidade de ter grandes mestres na área em que escolhi trabalhar.
MEDPLAN – O período em que o senhor esteve na universidade foi muito complicado para o Brasil, não?
Foi sim. Logo que eu entrei na Universidade estourou a revolução e Recife, como grande centro do Nordeste, ficou muito no meio da discussão. Nessa época eu era presidente do DCE da Universidade, tesoureiro do Diretório de Medicina e presidente da Casa do Estudante. Nesse cargo, sempre que um estudante mais visado pelos militares sumia, eu era detido, por ser presidente da Casa. Eu senti na pele esse clima da revolução, inclusive tive amigos que sumiram durante esse período, que foram torturados.
MEDPLAN – E o senhor acredita que essas pessoas conseguiram alguma coisa?
Conseguiram sim, mas hoje já não é mais a mesma coisa. Existe uma distorção do que aconteceu. O cidadão muda bastante com o tempo, já não defende as mesmas idéias com tanta veemência, devido a decepção que sente em relação a algumas pessoas que chegam ao poder e esquecem tudo que lutaram.
MEDPLAN – Dr Wilton, como o senhor encara a religião? É religioso?
Eu sou religioso, mas não vou à missa como deveria. Acredito bastante, sou devoto de São Francisco do Canindé. No entanto, a falta de tempo não me permite ir tanto à missa.

MEDPLAN – Quantas atividades o senhor desenvolve ao mesmo tempo?
Sou coordenador de Otorrinolaringologia e de Medicina Legal no curso de Medicina da UFPI, diretor da Clínica do HGV e Chefe do Departamento de Medicina Especializada da UFPI.
MEDPLAN – Com tanto contato com a UFPI, como o senhor vê os calouros que entram no curso hoje?
São pessoas esforçadas, mas tenho muito medo da ânsia do ganho de dinheiro, achar que vai ficar rico. Se você tem esse pensamento, se afaste da medicina, por que o médico precisa, antes de tudo, ser humanista. Precisa gostar do ser humano. Há uma desvirtuação. O médico ganha bem para ter uma vida boa, mas se a idéia é ficar rico, a medicina não é a profissão adequada.
MEDPLAN – O senhor é adepto dos exercícios físicos?
Faço caminhada há 22 anos com minha mulher, de segunda a sexta. São 10 km todo dia de manhã. Nos fins de semana, 7,5 km. Além disso, check up anual, mas é preciso admitir que o médico cuida muito pouco da sua saúde. Deveria dar mais o exemplo.
Jogo rápido...
Qualidade: Honestidade
Defeito: Sincero demais
Família: É tudo. Você reflete a sua família
O Piauí: É o meu estado. Me sinto orgulhoso de ser daqui
Um lugar: Pedro II
Um prato: Baião de dois com carne de porco
O que não falta junto de si: Amigos e as pessoas que gosto
Humor: Tenho bom-humor. As pessoas dizem que não me vêem triste.
Noite ou dia: Sou notívago. Durmo pouco, já por conta do hábito
Ser feliz é: Viver em paz consigo mesmo
Por Pedro Jansen
17.10.06
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