Processos de decisão não percorrem apenas o terreno da completa racionalidade
Cadastrado em: 12/07/2010
Foto: Divulgação
É difícil conciliar as opiniões favoráveis publicadas sobre "O Momento Decisivo", de Jonah Lehrer, com o livro publicado no Brasil. Uma simples consulta à internet mostra que a obra recebeu aplausos generalizados, que talvez possam ser resumidos pelo comentário do "New York Times": "Todos os casos são bem escolhidos e engenhosamente contados. Explicar o sistema de tomada de decisões do ponto de vista do funcionamento dos neurônios é uma tarefa desafiadora, mas Lehrer a desempenha de forma confiante e graciosa".
Não deve ser esta, tenho certeza, a opinião de leitores brasileiros. Não é a minha opinião. De fato, o livro é todo organizado em torno de episódios verdadeiros - a partir dos quais o americano Lehrer, formado na Columbia University e na Oxford University, tenta explicar como funciona a mente humana nos momentos em que se forma uma decisão. A editora brasileira não teve, no entanto, cuidados básicos para tornar agradável a leitura também nesta região do mundo.
Afinal, quantos de nós, brasileiros, entendemos as regras do futebol americano e conhecemos o seu jargão de forma a poder acompanhar, sem hesitações, o primeiro capítulo do livro, um balde de água fria no leitor a partir do título, "O 'quarterback' na zona de proteção"? "Quarterback"? Zona de proteção? Não dá para mudar a obra de Lehrer, retirando as referências a situações ou pessoas pouco conhecidas fora dos Estados Unidos, mas teria sido possível, sim, oferecer informações adicionais aos brasileiros, que ajudassem a entender as escolhas do autor, que decidiu, no final das contas, abrir sua obra com um relato exatamente sobre futebol americano.
A despreocupação com o leitor é tal que a editora brasileira nem ressaltou que o personagem principal da cena descrita por Lehrer no primeiro capítulo é o jogador Tom Brady, bem conhecido de boa parte do público brasileiro, por ser casado com a modelo Gisele Bündchen.
O descaso também aparece no índice remissivo, em que muitos nomes são relacionados fora da ordem alfabética ("Damasio", referência ao neurocientista Antonio Damasio, está relacionado no índice entre "decisões dos consumidores" e "dados").
Vencidos esses problemas, há que se concordar que é muito interessante o livro de Lehrer, atualmente editor da revista "Wired" e do blog sobre neurociência da "Scientific America".
Não é uma obra de autoajuda ou de administração de empresas no sentido mais estrito, mas também pode ser considerada uma ferramenta de trabalho para homens de negócios, na medida em que se propõe ajudar a compreender como as pessoas (inclusive, no seu papel de consumidoras) tomam decisões.
O que Lehrer procura desmontar são alguns dos dogmas mais difundidos em relação aos mecanismos cerebrais nos momentos de decisão, usando para isso experiências empíricas, mas também recursos novos, descobertos ou desenvolvidos pelos neurocientistas, e equipamentos que permitem observar o cérebro nos momentos em que os indivíduos escolhem um caminho ou outro.
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Lehrer invoca estudos e casos para demonstrar que, ao contrário, as emoções são fundamentais em momentos de escolha - sem elas, não seria possível decidir nada. Isto não quer dizer, porém, que confiar na intuição é o melhor atalho para boas decisões.
Os sentimentos também desorientam e atrapalham. Lehrer recorre à figura do cocheiro e do cavalo para ressaltar a importância do equilíbrio entre razão e emoção.
Livros como este ajudam a aproximar os leitores dos escaninhos da neurociência, para muitos ainda um mistério, com traços de adivinhação.
É de espanto e de incredulidade a primeira reação a estudos como um divulgado no final de junho, que informa que neurocientistas da Universidade da Califórnia demonstraram que podem usar scanners cerebrais para prever que determinadas pessoas vão usar bloqueador solar na semana seguinte ao teste com grau maior de precisão do que o próprio consumidor. Com seu didatismo, Lehrer mostra que não há mágica nessas conclusões. Há ciência.
Fonte: Valor Online
Enviada por JC
Edição: F.C.
12.07.2010
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