Portal Oncomédica lança especial sobre "remédios naturais"
Cadastrado em: 22/09/2008
Nilshelena Bezerra, diretora clínica da Oncomédica
Com freqüência sou interrogada durante as consultas sobre o uso deste ou daquele produto “natural” em conjunto com a quimioterapia, porém, a situação mais comum é ser surpreendida durante uma conversa com o paciente que, inadvertidamente, deixa escapar que vem fazendo uso já a algum tempo de alguma planta com intuito medicinal. E sempre se segue a mesma pergunta, que eles mesmos respondem: “Não faz mal, não é doutora? Afinal de contas, é natural”.
Por ser uma situação tão freqüente, resolvemos aborda-la aqui no site. Reconhecemos que é difícil para o paciente encontrar fontes confiáveis em que se apoiar para utilização responsável das plantas medicinais. Geralmente, é o vizinho, o amigo ou familiar que ouviu falar que determinada planta ou fruta faz maravilhas no tratamento ou prevenção do câncer e melhor ainda, sempre sem efeitos colaterais. Não podemos nos esquecer que plantas, ou mesmo partes de uma planta, contém substâncias químicas que agem sobre o corpo. Você sabia, por exemplo, que mais de 60% dos quimioterápicos que utilizamos hoje foram desenvolvidas a partir de plantas? O que fazemos na medicina convencional ou alopática é isolar as partes ativas das plantas e estudar se são mesmo efetivas e em caso positivo, qual a dose correta para se alcançar o maior benefício com a menor incidência de efeitos colaterais.
Infelizmente, grande parte dos chamados “remédios naturais” utilizados de forma tão corriqueira estão em processos inicias de estudo, ainda em fase de testes, o que significa dizer que mesmo se forem úteis para determinadas patologias, ainda não sabemos seu modo de ação, dose apropriada, possíveis efeitos colaterais ou interferência com outras medicações.
Na oncologia, o uso destes remédios naturais em pacientes em tratamento deve ser bem pensado pelo potencial que possuem de causar mal através de:
- Interferência com a ação oxidante da quimioterapia (QT) ou radioterapia (RT): alguns quimioterápicos (como a cisplatina, doxorrubicina, entre outros) e a radioterapia agem dentro da célula tumoral produzindo radicais livres. Os danos causados por estes radicais são, em grande parte, os responsáveis pela morte da célula tumoral. Cogita-se que fazer uso de plantas (como o noni, a soja, chá verde, entre outros) ou suplementos dietéticos com ação anti-oxidante (como vitaminas C, E, selênio, entre outros) concomitantemente ao tratamento poderia anular o efeito deste último.
- Interferência com drogas: Tomemos como o exemplo a erva de São João (Hypericum perforatum), muito utilizada para o tratamento de depressão, que sabemos ser comum após o diagnóstico de câncer: um estudo mostrou que indivíduos que faziam uso de irinotecano, uma das drogas mais ativas no tratamento do câncer de intestino, junto com a erva de São João tinham redução maior que 50% nos níveis sanguíneos da parte ativa da droga, conhecida como seu metabólito ativo, o SN38.
Precisamos lembrar que o problema reside no uso de doses concentradas ou maiores destas substâncias. É improvável que a ingestão de porções habituais que fazemos na nossa dieta do dia-a-dia seja prejudicial.
Antes de usar, pense!
Diante do exposto acima, fica claro que antes de iniciar o uso de plantas medicinais, fitoterápicos ou suplementos dietéticos, é importante considerar em 1º lugar a segurança (É adequado para o meu caso? Passou por algum controle de qualidade? Não tome nada por achar que se bem não faz, mal também não vais fazer); em 2º lugar a eficácia (Tenho informações seguras e confiáveis de que seu uso é eficaz? Tomar algo apenas por tomar não vale a pena, vale?); em 3º lugar o custo, não apenas financeiro, mas emocional também (Quais são as minhas expectativas? Estou investindo além do razoável?); e por último, mas não menos importante, a capacidade da pessoa que indicou a medicação (É alguém treinado e experiente?).
Uma das principais razões por parte das pessoas em tratamento oncológico para o uso das plantas medicinais e correlatos é o desejo de fazer de tudo para se ajudar e de re-adquirir o controle sobre sua própria vida. E isto é ótimo, pois ser ativo nas decisões sobre o seu tratamento só poderá ajudá-lo. Mas como vimos aqui, mexer com “medicina natural” não é tão simples como muitos pensam. Por isso, tenho uma sugestão a fazer: faça do seu médico, o seu parceiro. Converse com ele sobre suas opções de tratamento, tanto convencionais quanto complementares ou naturais. Concordando que o uso do medicamento natural não será prejudicial no seu caso, ele poderá acompanhar sua evolução e ao mesmo tempo ficar de olho nos efeitos de ambas as terapias, a complementar e a convencional.
Por fim, para ajuda-lo a tomar decisões bem orientadas, o Dr. Manoel Pinheiro, farmacêutico da Oncomédica, estará iniciando uma série de artigos sobre os produtos naturais, fitoterápicos e suplementos dietéticos mais utilizados na oncologia, começando pelo Noni, pela freqüência com que ele vem sendo utilizado. Bom proveito!
P.s.: Ficaremos felizes com sugestões de tópicos para esta coluna, através do FALE CONOSCO.
Dra. Nilshelena Bezerra
Oncologista e diretora clínica da Oncomédica
22.09.2008
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