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O Carcará, as perdas e a genética. E as mulheres.

Cadastrado em: 16/01/2012
O Carcará, as perdas e a genética. E as mulheres.
Ernesto foi meu colega de faculdade, no primeiro ano do curso. Gentil, inteligente, tendo obtido uma boa classificação no vestibular, era uma das pessoas mais simpáticas da turma que se iniciava. Nossa disciplina mais temida era Histologia, comandada por uma lastimável figura, que portava o sugestivo apelido de "Carcará". Para quem não sabe, o carcará, primo do gavião, é um terrível predador do sertão nordestino, imortalizado pela famosa música do Chico Buarque, na peça Opinião, peça de combate da esquerda na época da ditadura militar.

Ernesto era, em tudo, o contraponto ao Carcará - o contraste radical, a diferença entre a chuva e o sol. E para seu azar Carcará o escolheu como vítima! Logo no primeiro dia de aula se iniciaram as provocações: "Hum, pessoal, este coleguinha de vocês, este Ernesto, parece ser um burguesinho, menininho bem vestido, rapazinho cortês ... Vamos ver como se sai nas provas ! "E nas provas, sobretudo nas gincanas, testes orais sempre conduzidos pelo macabro professor, nosso colega querido era massacrado. Como se previa, Ernesto, tendo sido aprovado com notas excelentes nas outras disciplinas, foi reprovado em Histologia. E descompensou: entrou em profunda depressão, tentou suicídio, abandonou o curso e nunca mais se recuperou.

O que leva algumas pessoas a sucumbirem às pressões dos sofrimentos, das injustiças e das frustrações, enquanto outras emendam uma perda em outra perda, um relacionamento em outro, de modo quase contínuo, sem viverem sequer um intervalo de tristeza ? Porque uns têm aptidão para lidar com perdas de uma maneira adaptativa, e outros descem a ladeira de modo irreversível? Porque uns aceitam a vivência dolorida como um aprendizado, procurando novas possibilidades, sem perderem a essência da vida; e outros insistem no "ou é o que desejo, ou é a desgraça"?

Quem não conhece a história do famoso Stephen Hawking, físico inglês que acaba de completar 70 anos, sendo considerado o maior cientista vivo do mundo? Pois bem, aos 21 anos de idade ele desenvolveu um quadro neurológico que lhe paralisou todo o corpo, tendo sido informado de que não viveria mais que 14 meses. Hawking usou a adversidade como combustível para suas conquistas: nestes 50 anos de completa paralisia motora já fez tantas descobertas importantes quanto Einstein. Casou-se duas vezes, teve filhos, publicou centenas de trabalhos científicos, e decifrou vários enigmas do universo. Disse ele, recentemente, que seu único desafio intransponível é entender as mulheres. Mas, aí já é exigir demais de um cérebro humano... mesmo sendo o cérebro de um gênio.

Lance Armstrong, ciclista americano que ainda jovem foi operado de um câncer no testículo, e depois foi campeão mundial de ciclismo por várias vezes; o ex-presidente Lula, que venceu todas as limitações sociais e intelectuais e, após perder várias eleições, se tornou presidente do Brasil, são alguns exemplos de grandes vencedores, pessoas que não sofrem bloqueios psíquicos na busca de seus objetivos: doenças graves, perdas amorosas, derrotas profissionais, não passam, para estas pessoas, de combustível para mais perseverança.

Pois bem, se você não pertence a este grupo de guerreiros, há um consolo. A culpa não é sua,  a culpa é da genética.

Um estudo publicado pelo pesquisador Tony Vernon, realizado na Universidade Western Ontário, no Canadá, concluiu que em quatro fatores ligados à capacidade mental para lutar contra adversidades ( comprometimento com projetos pessoais, controle sobre a própria vida, autoconfiança e disposição para encarar novos desafios), o principal elemento determinante é de origem hereditária. Então, está aí, mais uma culpa da genética: além da estatura, peso corporal, cor da pele, inteligência, humor, incidência de muitas doenças e habilidades musicais e esportivas, a capacidade de "ser duro na queda" também faz parte de nossa herança genética!

Para nós, os homens, resta um consolo: herdamos todos, sem exceção, de nossos antepassados, esta inata incapacidade masculina de entender as mulheres, embora as admirando tanto!

José Cerqueira Dantas
16/01/2012