Jota A: Dono de um traço econômico e engraçado
Cadastrado em: 13/12/2006
O chargista Jota A é velho conhecido no Piauí dos amantes de charges inteligentes e tirinhas de humor. O seu talento já transpôs barreiras e entre os seus muitos prêmios estão dois mais recentes: Primeiro lugar em Cartum temático no último Salão do Humor do Piauí, que abordou a bicicleta, e segundo lugar em Cartum temático no Salão de Humor de Paraguaçu Paulista, com a temática o homem e o vôo.
Com uma aparência de tímido, Jota A, em poucos minutos de conversa, mostra todo o seu potencial e talento para fazer o interlocutor sorrir. O artista entrou para o mundo das artes gráficas profissionalmente há 18 anos e até hoje está no seu primeiro emprego na área
Seu gosto pelo desenho vem da infância. As circunstâncias da vida sempre o empurraram para sua veia de desenhista. “Na década 80, vim de Coelho Neto (MA) para Teresina, quando o meu pai morreu. As artes gráficas já me chamavam a atenção, eu já lia muita história em quadrinho. Em Teresina, procurei aliar a paixão pelo desenho à sobrevivência e deu certo”, conta.
O primeiro emprego em Teresina foi numa fábrica de arroz, onde era empacotador. “Lá existia uma assinatura do Jornal o Dia e eu colecionava as charges, em pouco tempo sai da fábrica e ao acaso encontrei uma revista do personagem Chiclete com Banana em uma parada de ônibus. Aquilo me despertou para o desenho de humor. Comecei a copiar os desenhos da revista, depois de uma semana fui ao Jornal O Dia e o editor da época, o José Fortes Filho, viu meus desenhos e mostrou para ao então diretor do jornal que, aliás, é o atual, o senhor Walmir Miranda. Seu Walmir analisou e mostrou para outras pessoas que entendiam da arte e elas disseram que eu tinha um bom potencial. O destino conspirou a meu favor porque o Lasan, o chargista do jornal na época, estava saindo e eu entrei no lugar dele em 09 de setembro de 1988 e aqui estou até hoje”, relata.
Jota A recebeu a reportagem do Portal Medplan para um bate-papo sobre sua carreira no local mais apropriado, segundo ele, para suas criações para lá de inteligentes e engraçadas: a redação do Jornal onde trabalha.
Portal Medplan – Há uma diferença entre charge e Cartum, qual é?
Jota A – Há sim, a charge sempre é um desenho relativo à política, já o Cartum é um desenho engraçado sem ligação com a política.
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Portal Medplan - Como você descobriu seu jeito de desenhar, o famoso traço que todo artista tem?
Jota A – Meu traço é um pouco do Angeli, do Henfil e do Pelicano. O Angeli foi o primeiro que vi de humor e os outros dois descobri logo depois. A influência deles acabou refletindo no meu trabalho, mas tenho um estilo próprio. Meus desenhos têm bonecos das pernas finas, camisas largas, olhos grandes, são engraçados. O desenho para a mim tem de ser engraçado.
Portal Medplan - É fácil fazer charge no Piauí, é um estado de boas situações?
Jota A - Um Estado que tem um Mão Santa e um Alberto Silva é um paraíso para qualquer chargista. Nem precisa fazer charge, é só desenhar o que eles dizem. Às vezes os pego falando umas coisas tão engraçadas e me pergunto: por que eu não pensei nisso antes? (risos).
Portal Medplan - Qual sua opinião sobre a revista Piauí, que acaba de ser lançada e leva o nome do nosso Estado?
Jota A – Não sei o porquê de ter o nome do Piauí, não entendo, porque é uma revista que não tem nada a ver, é chata e que quer imitar a Caros Amigos (risos).
Portal Medplan - Você é um maranhense, já piauiense há quantos anos? O tempo que você passou em Coelho Neto, sua cidade natal, serviu para apurar seu olhar ou isso se deu aqui em Teresina mesmo?
Jota A - O início foi lá, pois descobri os desenhos, mas foi em Teresina que dei vazão a meu talento. Estou aqui desde a década de oitenta.
Portal Medplan - Além da Charge, você também se garante nos quadrinhos. Conta para nossos leitores como começou essa sua paixão e como é o movimento de quadrinhos aqui em Teresina?
Jota A – Comecei a gostar vendo ilustrações de livros e quando comecei a descobrir os quadrinhos foi muito interessante, minha paixão por essa arte aumentou. Eu e o Luís Marques Júnior, criamos caricaturas dos cangaceiros ninjas, uma alusão às tartarugas ninjas. Na época publicamos no jornal O Estado, colocamos tirinhas no Salão de Humor, fiou publicado em uma revista (1992), tivemos um Fanzine. Chegamos a fazer um núcleo de quadrinhos com estatuto, mas manter é muito difícil. Atualmente existe um núcleo feito pelo Bernardo Aurélio, os amantes se reúnem aos sábados e continuam a produzir.
Portal Medplan – Então os Fanzines são importantes para que a produção dessa galera apareça?
Jota A - Sem dúvidas. Aliás, o Fanzine foi o primeiro veículo onde publiquei trabalhos meus, em São Paulo, Belo Horizonte e São Luís. Ganhei um concurso de um Fanzine em Belo Horizonte, Minas Gerais, o Folheto Tropical.
Portal Medplan - Ainda falando de quadrinhos quais seus ídolos nesse mundo. Falo dos heróis? Por que se espelha nesses caras, ou os tem como ídolos?
Jota A - Homem Aranha, porque ele é o mais humano dos heróis, sofre, tem problemas. Tudo a gente aprende um pouco, desde o ídolo até as pessoas com quem convivemos nos dia a dia. Outra coisa que gosto bastante nos quadrinhos do Homem Aranha é a perspectivas que o desenho tem, é muito interessante.
Portal Medplan – E quais são os seus personagens próprios?

Jota A - O Zico e Zulmira, um casal que vive as desventuras de um casamento. Nas tirinhas do Jornal o Dia, vez por outra eles aparecem. Estão também na publicação Cara e Coroa, que é prefaciada pelo Ziraldo e pelo João Cláudio Moreno. A publicação tem tanto charges minhas como cartuns. Outro casal que desenho é os D’ Silvas.
Portal Medplan - E entre os desenhistas de quadrinhos e os chargistas, quais são as suas referências?
Jota A – Frank Miller é um ícone para mim, ele fez o personagem mais lido e mais discutido. Trata-se do criador de Batman. Ele recriou o Batman, é também o roteirista do Robocop dois.
Portal Medplan - Você ganhou recentemente dois prêmios em salão de humor, um deles o do Piauí. Qual o segredo para vencer competições assim, existe uma técnica?
Jota A - Normalmente faço uns 10 trabalhos e os dois melhores envio para competir. Os julgadores desses salões são pessoas que não me conhecem, mesmo aqui em Teresina, as pessoas que compõem a comissão julgadora e escolhem os melhores são todos de fora.
Portal Medplan - Em sua opinião, é possível se tornar um bom desenhista ou existe mesmo a questão do “dom”?
Jota A – Na minha visão você nasce com o dom e aperfeiçoa. O cartunista é 60% de criação. A maior arma dele é a percepção. Não basta apenas saber desenhar, tem que ter criatividade.
Portal Medplan - Como é o processo de criar diariamente charges para um jornal? É um trabalho prazeroso, você precisa de silêncio ou cria boas coisas em meio ao burburinho de uma redação?
Jota A – A redação do jornal é essencial e todo o burburinho que tem nela. Pois a charge pode surgir de uma conversa, de um comentário do colega, do noticiário da TV ligada.
Raio X:
Nome: José Antonio Costa (Jota A)
Idade: 37 anos
Quantos anos de profissão: 18 anos e de jornal O Dia também
Referência visual em Teresina: Praça Pedro II. É um lugar que gosto, lá existiam muitas bancas de revistas, tem todo um complexo cultural ao redor, com o Theatro 4 de Setembro, o Clube dos Diários.
Uma lembrança da infância: O Cine Rex, onde eu descobri o cinema e faz parte de minha vida.
Família: É tudo para mim
O que você lê no Domingo: Tudo que encontro: jornal, revista, livro, revista da TV do jornal.
Um livro: O Monge e o Executivo, que estou lendo atualmente. É bem interessante
Uma publicação periódica: A revista Veja
Como você define seu traço: Econômico e engraçado
Um Evento Cultural: O Salão de Humor do Piauí, por ter os melhores trabalhos do mundo e também no evento temos a oportunidade de conversar com os melhores da charge e do Cartum do mundo.
Um Lugar: A sala de minha casa. É lá que gosto de brincar com a Janiele e o Tiago, meus dois filhos, e com minha mulher Hordelene.
Um personagem: O Homem Aranha
Uma mensagem: Reze como se tudo dependesse de Deus e aja como se dependesse de você.
Fotos e texto: Adriana Cláutenes Lemos
13.12.2006
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