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Jesus Tajra: “a união é que faz a força na hora de administrar”

Cadastrado em: 07/04/2006
Jesus Tajra: “a união é que faz a força na hora de administrar”
Jesus Tajra e sua esposa Maria Amélia Costa Tajra

Jesus Elias Tajra, 74 anos, é o 11º filho de uma família de imigrantes sírio-libaneses, que está completando 100 anos de imigração para o Piauí em 2006. Do pai sírio herdou o tino empreendedor, do avô o senso político e da mãe libanesa a formação serena. Já com muita história para contar, as datas fazem parte da sua vida. A última mais recente a comemorar foi no dia 29 de março passado, quando festejou junto com os piauienses os 20 anos de fundação da TV Cidade Verde, uma das suas nove empresas de sucesso.

O empresário Teresinense é um administrador e líder nato. Desde a época de escola, no extinto colégio Leão XIII, se destacava como o primeiro da turma e empreendia ações ousadas como a criação de um jornal manuscrito que circulava internamente no colégio. Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Piauí, foi aprovado em concurso como fiscal de tributos federais, cargo que lhe possibilitou morar uma temporada em São Paulo. Exerceu a função durante 20 anos, quando então pediu exoneração para ingressar na vida empresarial. Isto em 1974, quando abriu empresa com o irmão José Elias Tajra. “Após 10 anos de sociedade, me instalei com empresa própria criando o grupo Jelta”.

Faz parte da sua história também a passagem pela vida política. Como deputado estadual está completando 40 de sua primeira eleição. Foi ainda deputado federal constituinte, secretário de estado e prefeito de Teresina. Atualmente é suplente do senador Heráclito Fortes (PFL). Hoje diz que não tem mais pretensões na vida política partidária. Mas confessa que uma de suas aspirações não realizadas é a de administrar o Piauí. “Não tenho ambições, mas sim aspirações. E a aspiração não realizada é de administrar o Piauí”.

Jesus Tajra recebeu gentilmente a reportagem do Portal Medplan, em seu escritório, para falar da sua experiência de administrador, da contribuição da família para a história de Teresina, da alegria de comemorar os 20 anos da TV Cidade Verde, bem como de seus gostos e convicções.


Portal Medplan - A sua empresa de comunicação, que é a TV Cidade Verde, está completando 20 anos com muita história para contar. Como aconteceu a sua paixão pela área de comunicação?


Jesus Tajra –
Desde o tempo de estudante tinha admiração pela comunicação. Quando estudava no Leão XIII, eu e o Carlos Said (jornalista e comentarista esportivo) criamos um jornal chamado “O Inocente”, que era todo manuscrito pelo Carlos Said. Já na faculdade, sempre colaborei com os jornais de Teresina, me tornei jornalista profissional e integrei-me na fundação do Sindicato dos Jornalistas do Piauí comandado pelo Simplício Mesquita. Já como fiscal de tributos fui morar em São Paulo e quando retornei em 1963 encontrei inaugurada a rádio Pioneira e passei a colaborar com artigos que eram lidos uma vez por semana. Cheguei a ter um programa semanal de entrevistas e debates chamado Território Livre. O primeiro programa foi com o então governador Petrônio Portela. Recebi um bilhete de Dom Avelar dizendo que queria falar comigo e nesse contato me convidou para dirigir a Rádio. Eu declinei do convite, mas ele insistiu e me convenceu. Passei 20 anos à frente da Rádio, até 1987. Foi aí que me apaixonei mais ainda pela comunicação e consegui transformar a Rádio Pioneira de última em audiência para a primeira. Em 1980, fundei com meu irmão José Elias Tajra o Jornal da Manhã e lá fiquei na direção cinco anos. Em 1982 ganhei a concessão da TV, que nasceu TV Pioneira, e ela foi inaugurada em 1986.

Portal Medplan - Olhando para trás, o que o senhor diz sobre o segredo da construção de uma empresa de comunicação como a TV Cidade Verde, que está completando 20 anos, e é hoje um de seus empreendimentos de sucesso?

Jesus Tajra - Sinto aquele orgulho do Pai com o êxito do filho, com o sucesso. Estabelecemos uma linha de conduta da qual nunca nos afastamos, uma linha editorial independente, o bom relacionamento com os funcionários, o amor ao trabalho para alcançar o objetivo que nos propomos. Tenho que reconhecer o comando do meu filho Jesus Filho como fator que colabora muito para esse sucesso. É ele quem empolga as pessoas. O chefe tem que empolgar e acompanhar a execução do trabalho e contamos também com um corpo funcional da melhor qualidade.

Portal Medplan - Além da TV, o senhor tem empreendimentos em outras áreas, mas aí ligados à questão do comércio, também todos bem sucedidos. Qual é o peso do sangue sírio-libanês, que é conhecido em todo mundo por suas habilidades com o comércio, nessa trajetória de sucesso?

Jesus Tajra – Sempre fui mais intelectual do que homem de comércio, estive sempre mais na retaguarda, na parte de administração. Não me considero um homem de negócios, embora tenha criado muitos negócios. Nas minhas empresas continuo na retaguarda, na parte jurídica, contábil, é administração pura. Meus filhos é que estão na linha de frente exercendo o papel de comerciantes. O Jesus Filho, por exemplo, começou a trabalhar comigo quando desfiz a sociedade que tinha com meu irmão.

Portal Medplan - Ainda com relação ao peso do nome sírio (Tajra), gostaria que o senhor falasse da importância da sua família (e da colônia sírio-libanesa) na história de Teresina.

Jesus Tajra - Esta fazendo 100 anos da imigração de meu pai, Elias João Tajra. Ele veio para cá em 1906.  Os sírios que vieram parar aqui não tinham instrução, meu pai tinha alguma, minha mãe era analfabeta, mas meu pai era muito inteligente e minha mãe uma grande mulher, uma santa. Imagina o que era Teresina naquela época. Meu pai era muito empreendedor e veio para trabalhar com um tio. Então com esse espírito de comerciante, se associou com o tio dele e um cunhado e montaram a loja “Bom Marché”, ali na Paissandu. Aliás, meu pai veio e se estabeleceu naquela rua e de lá nunca saiu. Depois ele desfez a sociedade e abriu uma loja própria, a Casa Progresso. Nessa época eu tinha 12 anos e comecei a trabalhar com ele. Com a visão que ele tinha mandou dois filhos estudar fora Um se formou em Medicina, pela Universidade do Brasil (RJ), e minha irmã, que hoje tem 90 anos, em Farmácia, também pela mesma Universidade.  Essa irmã foi a primeira universitária do Piauí. A colônia sírio-libanesa daqui é formada mais por libaneses. Sírio-libaneses mesmo só as famílias Sadi e Tajra. É verdade que a colônia sírio-libanesa tem uma contribuição marcante para a história de Teresina, sobretudo, nas áreas do comércio, da medicina, da comunicação e na vida intelectual também, além de ter influenciado a culinária local, embora daquilo que se conhece aqui da nossa cozinha seja muito pouco do que realmente é.

Portal Medplan - Na contramão dos guias de Administração, que condenam a administração familiar por acreditarem que é um passo para o fracasso dos negócios, as suas empresas têm esse tipo de administração e são sucesso. Como o senhor a análise isso?

Jesus Tajra – Quando se fala em empresa familiar desaparecer, não deixa de fazer sentido até mesmo baseado em fatos reais. Muitas vezes, na sucessão da administração nem sempre os sucessores têm aptidão para atividade. Geralmente, em empresas familiares quando o chefe desaparece acontecem as brigas pelo patrimônio e a divisão dos bens, com conseqüente enfraquecimento do negócio.  Sempre procuro doutrinar meus filhos que é unido que se é forte. Espero que assim o façam. Temos um grupo forte, não adianta cada um puxar para si. Exemplo de empresa familiar que é forte é o grupo Votorantin, que está aí na terceira ou quarta geração. Para as empresas funcionarem bem a frase chave é “a união fazendo a força”.

Portal Medplan - Falando agora de vida pessoa, qual o significado da família para o senhor?

Jesus Tajra – É tudo. Marcou-me a frase de Rui Barbosa: A pátria é uma família amplificada. Um país com famílias estruturadas você tem uma pátria forte e estruturada.

Portal Medplan - Qual é a sua diversão preferida? Ou é só trabalho?

Jesus Tajra - Trabalho para mim é diversão. Mas também gosto de viajar. Conheço bem o mundo e me orgulho disso. Viagem não é só lazer, é conhecimento. Gosto também de ler, de futebol. Tudo isso são coisas que me prendem.

Portal Medplan - E as atividades físicas, elas fazem parte da sua rotina?

Jesus Tajra – Fazem sim. Estou parado no momento devido a um problema de coluna. Mas pretendo voltar a me exercitar no segundo semestre deste ano.

Portal Medplan - A culinária sírio-libanesa é muito apreciada entre os piauienses, ela é sua favorita também?

Jesus Tajra – É a comida árabe, mas adoro também uma feijoada com pimenta (risos).

Portal Medplan - E quanto à bebida, qual é a de sua preferência?

Jesus Tajra – Não sou muito de bebida, mas aqui acolá um vinho tinto (quando viajo para lugares frios) e uísque.

Portal Medplan - O senhor tem alguma mania?

Jesus Tajra – (risos). Subir escada contando os degraus, aqui no prédio do meu escritório, por exemplo, a escada tem 25 degraus (risos). Você pode comprovar quando descer (risos).

Portal Medplan – E como surgiu essa mania?

Jesus Tajra – Talvez seja porque estive em Barcelona e lá visitei algumas igrejas e todas tinham escadarias enormes na frente. Acho que foi daí que passei a contar os degraus (risos). Depois viajei ao Canadá e lá encontrei muitas escadarias também (risos).

Portal Medplan – Dos lugares por onde o senhor passou qual o que destaca?

Jesus Tajra – A terra do meu pai, por uma questão de sentimento. Outros lugares que me marcaram foram Paris, Roma e Nova York.

Portal Medplan - E a religião, qual o papel dela em sua vida?

Jesus Tajra – Sou muito religioso. Sou de uma família com três irmãs freiras. Minha mãe ia regularmente à missa na Igreja das Dores, tive minha vida religiosa iniciada lá. Naquela igreja fui coroinha, sabia falar a missa toda em latim.

Portal Medplan - Um projeto não realizado?

Jesus Tajra - Não vou dizer um projeto, mas um ideal, pois não tenho ambições, mas aspirações. E a aspiração não realizada é de administrar o Piauí.

Portal Medplan - Uma mensagem?

Jesus Tajra – Fé em Deus e confiança em si mesmo. Esse sempre foi meu lema.