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Chega de palmada

Cadastrado em: 15/06/2010
Chega de palmada

Mais do que o próprio Mundial na África do Sul, hoje, o que esquenta e divide o debate da opinião pública europeia é a eficácia das palmadas como instrumento disciplinador das crianças. Entidades de monitoramento dos direitos humanos na Europa querem que os países proíbam na lei qualquer tipo de castigo corporal, inclusive as palmadas no bumbum. Para os defensores da medida, qualquer tipo de punição que envolva violência física degrada a dignidade da criança e viola seu direito à integridade.

O caso da procuradora de Justiça do Rio de Janeiro, Vera Lúcia de Sant'Anna Gomes, acusada de torturar a menina de dois anos que pretendia adotar, voltou a atenção das autoridades brasileiras para a situação que, com variados graus de crueldade, repete-se diariamente em todo o país: a violência intrafamiliar. Para especialistas, a maior causa desse tipo de violência é a crença na agressão como parte do processo educativo. Só nos primeiros cinco meses do ano, o serviço nacional de denúncia de violências contra crianças e adolescentes registrou cerca de nove mil denúncias.

A média é de 60 denúncias por dia. Pais, madrastas, irmãos e parentes próximos estão entre os mais comuns agentes de violência contra crianças nas mais variadas formas, desde agressões verbais e psicológicas a abusos sexuais. Ainda há aqueles que apostam numa forma de educação na base da palmada, fundamentada numa espécie de pedagogia da violência. “Estudos mostram que muitos que foram vítimas de violência quando crianças tendem a repetir o modelo aprendido e cometem, na fase adulta, crimes contra crianças”, diz a médica e psicanalista, Soraya Hissa de Carvalho.

De acordo com Soraya, a maioria das crianças vítimas de algum tipo de violência preenche os critérios de diagnóstico de desordens mentais e estresse pós-traumáticos, apresentando reduzido envolvimento com o mundo externo, revivência do trauma, hiperatividade, hiperagressividade e distúrbios de sono.

Segundo ela, nos quadros agudos, manifestam sentimentos de infelicidade e pânico, regressões a fases anteriores de desenvolvimento do ego, comportamento autodestrutivo e depressivo. “Os limites são fundamentais. Agora, tudo deve ser negociado. E ninguém precisa bater para exigir respeito”, lembra a especialista.

A maioria das violações cometidas por pais e mães relaciona-se ao direito à convivência familiar e comunitária, em situações como abandono dos filhos sozinhos em casa e falta de condições materiais.

“Os pais descontam suas angústias nos filhos”, ressalta a psicanalista, lembrando que parte significativa da violência fica oculta, entre quatro paredes, longe da ação das autoridades. “O senso comum diz que se eu bater em um adulto, posso ser preso, mas posso bater em uma criança para educar. Então, temos de fazer com que a violência contra as crianças seja punida com maior vigor pela lei", recomenda.

Dados do Unicef, o fundo das Na­ções Unidas para a infância, apon­tam que agressões e negligência são responsáveis por quase um quarto das mortes de crianças de zero a 6 anos no mundo.

Muito além da palmada - Casos de violência que chocaram o país

Março de 2008

- Caso Isabella: menina de 5 anos morre depois de ser jogada pela janela do apartamento em São Paulo

- Cativeiro em Goiás: denúncia leva a polícia a libertar menina de 12 anos que era torturada há dois pela mãe adotiva
 
Fevereiro de 2007

- Caso João Hélio: menino fica preso ao cinto de segurança e é arrastado por 7 Km, pelas ruas do Rio de Janeiro
 
Dezembro de 2006

- Tragédia em família: casal e filho de 5 anos são queimados vivos dentro do carro, em Bragança Paulista
 
Janeiro de 2006

- Abandono: recém-nascida é jogada em um saco plástico na lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte
 
Maio de 2004

- Crime de sangue: engenheiro no Rio de janeiro mata a tiros a mulher, as duas filhas e
depois comete suicídio
 
Abril de 2002

- Magia negra: menino de 6 anos morre em ritual satânico no caso das bruxas de Guaratuba, no interior do Paraná
O fim das palmadas

- Palmadas violam os direitos da criança, à integridade física e à dignidade. Se não é legal dar um tapinha em um adulto, então em uma criança também não é

- A prática de bater pode deixar sequelas graves. Estudo norte-americano com 2.500 mães mostra que crianças educadas com palmadas tendem a se tornar mais agressivas do que as que não foram

- As crianças entendem que a violência é uma forma aceitável de resolver um conflito

- Há dúvidas sobre a eficácia da palmada para disciplinar crianças

 

Fonte: Revista Bem Viver
Edição: F.C.
15.06.2010