Estou com câncer, e agora?
Cadastrado em: 26/03/2009
Carlos Alberto Vilanova é cliente Oncomédica desde 2006. Diagnosticado com um câncer raro no pulmão, ele está em tratamento para controle da doença. O problema não o impede de aproveitar a vida com a família e os amigos. Durante os últimos anos, ele participou de viagens e até teve o prazer de retornar ao trabalho. No texto abaixo, Vilanova revela um pouco de suas vivências diante do diagnóstico de câncer.
Estou com câncer, e agora?
* Por Carlos Alberto Carvalho Vilanova
O Diagnóstico
“Caro José (pode ser Maria, Joana, Quitéria ou Manoel), de acordo com o mostrado pela tomografia e confirmado pelo exame patológico recebido do laboratório, o Sr. (a) é portador (a) de neoplasia maligna, (câncer). Mas, temos de levar em conta o fato de que, com o desenvolvimento das drogas específicas para este tipo de tumor, os tratamentos de agora apresentam um índice bem elevado de sucesso e a cada dia aumentam os índices de sobrevida após cinco anos do tratamento.”
Com raras exceções, vai depender muito da sensibilidade do profissional, este é o início da conversa entre médico e paciente para comunicar o resultado dos exames que detectaram o câncer, e colocar em pratos limpos a real situação, mostrando qual o protocolo de tratamento a seguir em face do problema apresentado. Da mesma forma que aconteceu comigo, com certeza o paciente portador da neoplasia não conseguiu ouvir uma palavra sequer dita na segunda parte do parágrafo acima. Isto porque neste momento ficamos em estado de choque, e, infalivelmente, se tem a sensação de que o chão nos falta sob os pés.
A partir dessa fatídica entrevista, se segue a sensação de perda ou de que fomos roubados em algo precioso, e uma pergunta nos martela a mente: por que comigo? Este estado de espírito permanece por muitos dias e, se o paciente não tiver o apoio emocional necessário, entra em depressão profunda, em prejuízo do tratamento que só é eficaz quando encontra uma mente receptiva a ele.
No meu caso, foram algumas semanas até verificar que havia algum progresso no tratamento, só quando foi feita a primeira avaliação dos efeitos da radioterapia. Aquela velha história do ver para crer. Nessa ocasião, ao constatar que meu organismo reagia ao tratamento, me enchi de esperança e me permiti ao que chamo hoje de pequenas ousadias, onde estou sempre desejando e me esforçando para atingir determinada meta no meu tratamento. Essas pequenas ousadias, somadas, me dão hoje a certeza de que o componente emocional é de fundamental importância para o sucesso de todo o trabalho envolvido, seja no processo de cura, ou de manutenção do paciente com qualidade de vida, quando o câncer é tratado como doença crônica, por falta de opção cirúrgica, como é o meu caso.
O tratamento
Logo ao fazer a primeira avaliação pós radioterapia e fase inicial de quimioterapia, foi afastada a hipótese de cura em razão de o tumor ficar em lugar que não oferecia a menor possibilidade de sucesso, caso se optasse por cirurgia para remoção do nódulo existente. Então, restou apenas a opção de tratar o câncer através de quimioterápicos e dar aos procedimentos o status de tratamento de doença crônica. Desnecessário dizer que nova onda de incerteza se abateu sobre mim, e foi necessária uma nova reprogramação do espírito para enfrentar a novidade.
Foi então ministrada uma segunda droga, em novo ciclo de quimios, com todas as implicâncias que isto tem em nosso organismo e no nosso ânimo. Mas, a partir de então, comecei a desenvolver as minhas defesas emocionais. Ao desconforto das quimios, eu dava o status de ritual de passagem para a próxima etapa. A cada limitação que surgia, eu não me lamentava e sim me perguntava o que me era permitido fazer e procurava curtir o que era possível, livremente e sem restrições. Pode ser pouco, mas tem horas que um pôr-do-sol ou uma aurora são coisas indescritíveis. Você já se flagrou sentindo o cheiro de mato após a chuva? Curtir o quanto é legal beber um copo de água fresca, sem o sabor estranho que alguns quimioterápicos dão? Garanto que estas coisas tão corriqueiras, que a gente nem nota quando está saudável e com tudo dando certo em nossa vida, nos dão realmente prazer.
Enfrentando a doença
Vencida a segunda etapa de quimios, cheguei a curtir uma viagem de férias em companhia de minha filha caçula, para rever parentes e amigos no Distrito Federal e Goiás. Foi a primeira viagem após ter recebido o diagnóstico da doença que havia mudado a minha vida. Cansativa sim, mas muito prazerosa, porque neste período revi irmãos e amigos que, mesmo distantes, se fizeram presentes através de e-mails e telefonemas, não me deixando só em nenhum momento, pois a sensação que eu tinha é que toda essa galera estava ali no meu quarto, torcendo por mim. Nessa viagem, eu quis visitar cada um deles e dizer “estou bem e isto graças ao seu apoio, valeu a torcida”. Foi uma autêntica celebração por estar vivo, apesar das limitações impostas pelo câncer.
Após retornar, fiz nova bateria de exames para avaliação e como não apresentava alterações, retornei ao trabalho. Desnecessário falar do contentamento em me sentir vivo e na ativa novamente. Permaneci na ativa até o terceiro trimestre, quando foi feita nova avaliação e constatou-se a recidiva da doença. Foi então escolhido um terceiro tipo de droga para dar combate aos tumores recém detectados e, após a segunda seção de quimioterapia, voltei a me afastar do trabalho por causa dos efeitos da medicação. Mais uma vez tive que reprogramar a minha vida para preencher o meu tempo fora do trabalho.
Retorno
Três meses depois, foi feita nova avaliação e a constatação de novos nódulos forçou a equipe médica a mudar mais uma vez a medicação e seguiram-se sete meses de tratamento utilizando medicação oral. Levando-se em conta o tipo de câncer instalado no organismo, há muito que comemorar, uma vez que surgiram novos nódulos, mas os antigos não se desenvolviam. Nesses sete meses de medicação oral pude viajar, desta vez desacompanhado e com qualidade, pois se tenho a limitação de me cansar pelo esforço, repouso por algumas horas e depois vou à luta como qualquer mortal. No momento estou em férias da medicação para, daqui a algum tempo, fazer nova avaliação e ver como vou retomar o tratamento.
Este é o retrato do meu tratamento, do ponto de vista médico, sem maiores detalhes. Agora vou falar de como enfrentei as mudanças de curso no período, pois foram várias as mudanças enfrentadas e como consegui me preservar do ponto de vista emocional.
Em primeiro lugar quero esclarecer que não sou super nada e como todos pacientes de câncer tive meus momentos de lágrimas, dúvidas e abatimento. A diferença está na reação e na busca de respostas para o meu caso concreto. E isto não se faz sem o apoio do profissional adequado, o psicólogo, que muitas vezes, por puro preconceito gerado pelo desconhecimento é apontado como o profissional que trata de desequilibrados. Pelo contrário, sem a ajuda adequada, estamos fadados a ficar perdidos no meio do caminho e comprometer definitivamente o tratamento. A presença desse profissional em todos os momentos é de fundamental importância para o processo de cura ou da qualidade de vida.
Ninguém atravessa um tratamento oncológico em céu de brigadeiro. Tanto pelo fato da notícia da existência do câncer em si, quanto pelo estigma que a doença carrega. Afinal, junto com a notícia vem o cancelamento e a frustração de muitos projetos na nossa vida. No meu caso, inclusive, doeu mais o arquivamento de todos os projetos existentes e que estavam em andamento do que a doença em si. Tive realmente que repensar todos os meus projetos de vida e me questionar seriamente sobre o que seria minha vida a partir de então. Ainda mais porque o meu caso é de câncer nos pulmões, o que acarreta a certeza de ser o mais fatal de todos, pelo menos estatisticamente. Todo o meu tratamento até agora foi feito com a presença de uma ou outra intercorrência, que foi vencida graças a minha vontade de sobreviver e de encarar todas as reações adversas dos medicamentos e os acidentes de percurso enfrentados como fatos normais do tratamento.
Inicialmente, tive como meta voltar ao trabalho. Isto eu consegui após a segunda série de quimioterapia. Quando houve a recidiva e precisei tomar a terceira série de quimioterápicos, tive que me afastar novamente de minhas funções. Desde então, ficou clara a impossibilidade de cura para o meu caso. Entretanto, em razão da resposta à terceira série deixar constatado que os nódulos que surgiam não se desenvolviam, optou-se por medicação oral, em substituição às aplicações de quimio tradicionais via endovenosa. Este é o quadro que permanece após sete meses de comprimidos e, no momento, encontro-me em compasso de espera para nova avaliação daqui a sessenta dias.
Vencendo os obstáculos
Todo esse percurso só foi feito com relativa tranqüilidade porque me disponibilizei a adaptar o meu comportamento frente a cada obstáculo que aparecia. Tive que trabalhar os meus medos, aceitar fatos novos e redefinir objetivos, sempre buscando ter qualidade de vida e afastando do meu dia-a-dia qualquer coisa que fosse contrária a isto. Uma das coisas que assimilei desde o início do tratamento foi encarar o grande tabu que a maioria das pessoas associa ao portador de câncer: o estigma da morte certa e próxima. Hoje eu me disponho a encarar isto de frente e pergunto aos defensores desta tese: você conhece alguém programado para não morrer? Não precisa falar, já sei da resposta. A minha preocupação real é ter qualidade de vida no presente e com isto eu procuro afastar de mim todo e qualquer fato que torne a minha existência desagradável ou estressante.
A minha busca por qualidade de vida começou de forma tímida e aos poucos fui acrescentando mais metas a cumprir, obedecendo ao critério de “um passo de cada vez”. Parece difícil, mas não é. Primeiro busquei me harmonizar com os que me cercam, colegas de trabalho, amigos e, principalmente, a família. Isto porque o apoio familiar e dos amigos nesta quadra da minha vida é fundamental para a minha tranqüilidade psíquica e é o mais importante de todos. De forma suave, mas firme, procurei afastar de mim pessoas negativas ou que não me acrescentavam emoções positivas. Só que em nenhum momento pus qualquer rótulo nas pessoas das minhas relações, pois para mim hoje não existem pessoas boas ou más e sim pessoas com características próprias. É uma forma de me preservar emocionalmente e não deixar que emoções negativas venham minar o meu ânimo e comprometer o meu tratamento.
Enfim, é praticando o que chamo de “pequenos egoísmos” que consigo atravessar esta fase de minha vida com disposição para contar a minha história e dar a minha contribuição àqueles que estão vivenciando o tratamento de um câncer.
*Carlos Vilanova é cliente Oncomédica
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